Venenos de jararaca mostram potencial no combate à esquistossomose, revela estudo da USP

Estudo da USP e Instituto Butantan abre novas possibilidades para tratamentos contra esquistossomose, utilizando venenos de jararaca e outras serpentes.

04/08/2026 11:16

4 min

Jararaca. Imagem ilustrativa
Jararaca. Imagem ilustrativa

Um estudo realizado por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e do Instituto Butantan indica que venenos de serpentes do gênero Bothrops, incluindo a jararaca, podem ser eficazes no combate à esquistossomose. Os achados foram publicados no International Journal of Molecular Sciences e têm o potencial de contribuir para o desenvolvimento de novos medicamentos para tratar essa doença.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A pesquisa focou nos efeitos dos venenos sobre o Schistosoma mansoni, um dos principais parasitas causadores da esquistossomose. Os cientistas analisaram a expressão gênica, a reprodução e a viabilidade dos vermes, dedicando especial atenção à identificação de lncRNAs (RNAs não codificadores longos), que podem se tornar alvos terapêuticos promissores.

Efeitos dos Venenos nos Vermes

Os experimentos realizados em laboratório demonstraram que alguns venenos conseguiram reduzir a locomoção, a fixação e a viabilidade dos vermes, além de interromper a postura de ovos. Essa descoberta é especialmente relevante diante da crescente resistência do Schistosoma mansoni ao praziquantel, atualmente o único tratamento disponível.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Pacientes já relataram necessidade de doses maiores do medicamento para conseguir se curar da infecção.

Marina Zenga Carrenho e Agatha Fischer Carvalho, estudantes do Instituto de Biociências da USP, são as primeiras autoras do artigo. Murilo Sena Amaral, pesquisador no Instituto Butantan, liderou o estudo. Os venenos utilizados nos testes foram obtidos de várias espécies do gênero Bothrops: Jararaca (Bothrops jararaca), Caiçaca (Bothrops moojeni), Jararacuçu (Bothrops jararacussu), Jararaca – do – norte (Bothrops atrox), Jararaca – vermelha (Bothrops brazili), Cotiara (Bothrops cotiara), Jararaca – de – rabo – branco (Bothrops leucurus) e Jararaca – pintada (Bothrops neuwiedi.

O objetivo principal dos testes foi entender quais processos vitais do parasita poderiam ser afetados pelos venenos e quais RNAs longos não codificadores estariam envolvidos. Embora esses RNAs não codifiquem proteínas, eles desempenham papéis regulatórios importantes nas funções biológicas do verme.

Resultados das Pesquisas

No primeiro teste, casais de vermes adultos foram expostos a doses baixas de cada um dos oito venenos por 24 horas. O Bothrops moojeni destacou – se como o mais potente, reduzindo significativamente acasalamento, adesão, motilidade, viabilidade e oviposição dos vermes.

Leia também

O Bothrops jararacussu também mostrou eficácia ao diminuir drasticamente a postura de ovos.

Murilo Sena Amaral observou que os machos apresentaram um colapso sistêmico notável após serem tratados com esses venenos. “Os resultados mostraram que os machos tiveram um número muito maior de genes afetados em comparação às fêmeas”, explicou ele.

Os genes afetados nos machos estão relacionados a processos essenciais como divisão celular e transmissão nervosa; enquanto as fêmeas apresentaram alterações em genes ligados à reprodução.

Próximos Passos na Pesquisa

A pesquisa representa apenas uma etapa inicial no combate à esquistossomose. Com base nos resultados obtidos, novas investigações deverão aprofundar a função dos RNAs longos na biologia do parasita. A próxima fase envolverá o desenho de moléculas sintéticas destinadas a “desligar” as funções essenciais desses RNAs.

“Após desenvolver moléculas que se mostrem eficazes em laboratório para desativar esses alvos, ainda será necessário realizar testes funcionais em organismos vivos e rigorosos ensaios clínicos em humanos antes que esses potenciais fármacos possam ser disponibilizados para a população”, afirmou o pesquisador Murilo Sena Amaral.

Compreendendo a Esquistossomose

A esquistossomose é popularmente conhecida como barriga dágua e resulta da infecção por vermes do gênero Schistosoma. A contaminação ocorre em ambientes aquáticos doces onde larvas microscópicas chamadas cercárias são liberadas por caramujos e penetram na pele durante o contato com a água.

Uma vez dentro do corpo humano, as cercárias se transformam em esquistossômulos e entram na corrente sanguínea, passando pelo coração e pulmões até chegarem às veias do fígado. Nesse local, os parasitas amadurecem até atingirem a fase adulta e começam sua reprodução.

A fêmea produz ovos que podem ser eliminados pelas fezes ou ficar retidos no organismo do hospedeiro, causando inflamações e lesões graves.

A esquistossomose é considerada a segunda doença tropical mais impactante globalmente, afetando cerca de 200 milhões de pessoas em todo o mundo, logo após a malária.

Marcos Oliveira é um veterano na cobertura política, com mais de 15 anos de atuação em veículos renomados. Formado pela Universidade de Brasília, ele se especializou em análise política e jornalismo investigativo. Marcos é reconhecido por suas reportagens incisivas e comprometidas com a verdade.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ative nossas Notificações

Ative nossas Notificações

Fique por dentro das últimas notícias em tempo real!