Recuperações judiciais no agronegócio crescem 71% e pequenos produtores lideram pedidos em 2026

O agronegócio brasileiro se consolidou como o principal foco das recuperações judiciais no primeiro semestre de 2026. Um levantamento da RGF Associados Biz Doc revela que, ao final de junho, 1.304 CNPJs do setor estavam em recuperação judicial, o que representa um aumento de 71,4% em relação ao ano anterior e uma alta de 25,4% apenas no primeiro semestre deste ano.
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Se considerada toda a cadeia produtiva — incluindo insumos, agroindústria e comercialização — o total chega a aproximadamente 1.620 CNPJs, correspondendo a um em cada cinco processos de recuperação judicial no Brasil.
Esse cenário indica uma mudança no perfil das empresas que buscam recuperação judicial. Tradicionalmente, grandes agroindústrias eram as mais afetadas, mas atualmente produtores rurais e pequenas empresas dominam os pedidos. Claudio Damasceno, sócio sênior da RGF, explica que “historicamente quem recorria à recuperação judicial eram as grandes corporações”, mas agora essa dinâmica se alterou com a oferta desse serviço por escritórios menores.
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Perfil dos Devedores e Culturas Afetadas
A pesquisa mostra também uma mudança estrutural no perfil dos devedores. Microempresas e pequenos empreendedores estão apresentando um crescimento acentuado nos pedidos de recuperação em comparação às grandes empresas. “As microempresas, pequenas empresas e empresários individuais apresentam uma curva ascendente muito mais forte do que as grandes empresas”, afirma Damasceno.
O estudo abrange 93 indicadores e inclui tanto empresas formalizadas quanto produtores que se tornaram pessoas jurídicas devido a novas exigências legais. Filiais estão contabilizadas, enquanto empresas inativas foram excluídas.
Entre as culturas mais impactadas pela crise, a soja lidera a lista com 612 produtores em recuperação judicial. Esse número dobrou em um ano e representa uma incidência alarmante: 21,8 recuperações para cada mil produtores ativos na cultura, cerca de 70 vezes acima da média nacional.
A pressão sobre os preços internacionais e margens reduzidas nas últimas safras são apontadas como razões para essa situação crítica.
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Padrões de Recuperação Judicial
Outro dado relevante é que a maioria dos pedidos de recuperação judicial vem agora de produtores rurais: dos 1.193 CNPJs ativos nessa situação no agronegócio, 886 pertencem a empreendedores do campo, representando 74% do total e um crescimento de 86% em apenas um ano.
O capital social médio desses agricultores é de apenas R 10 mil.
Damasceno destaca que “o patrimônio do produtor não está no CNPJ”, mas sim na terra e nas máquinas. Por isso, a recuperação judicial atua como um importante instrumento para preservar esse patrimônio. Diferentemente do comércio ou indústria, onde falências são comuns, o setor agropecuário praticamente não registra quebras — apenas 10 empresas faliram nos últimos três anos.
A pesquisa também revela que o produtor rural prefere manter sua atividade operante durante crises financeiras: “A recuperação judicial serve para preservar fazenda, máquinas e capacidade de produção”, completa Damasceno.
Efeitos Regionais e Fatores Contribuintes
No aspecto regional, Rio Grande do Sul e Mato Grosso continuam sendo os estados com maior número absoluto de recuperações judiciais no agronegócio. Minas Gerais se destaca com um aumento expressivo de 42,4% somente neste semestre e mais de 100% em relação ao último ano.
É importante notar que esse cenário impacta não só as propriedades rurais diretamente envolvidas nas dívidas, mas também toda a cadeia produtiva relacionada. Segundo Damasceno, há uma defasagem entre quando o produtor enfrenta dificuldades financeiras até o momento em que isso afeta os fornecedores — algo que pode levar até três trimestres para ser sentido na cadeia.
Os primeiros sinais dessa transmissão começam a aparecer com aumentos nas recuperações judiciais em setores correlatos: 88,9% no atacado de máquinas agrícolas; 32,4% nas revendas de defensivos e fertilizantes; e 21,2% nos laticínios.
Mudanças na Legislação
A RGF Associados acredita que o aumento das recuperações judiciais é resultado da combinação de fatores como queda nos preços das commodities, elevação dos custos produtivos, oscilações cambiais e eventos climáticos adversos. Apesar da recente melhora na taxa cambial, os juros elevados ainda afetam os produtores rurais negativamente.
Além disso, entrou em vigor o Provimento 216 do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), estabelecendo novos critérios para solicitações de recuperação judicial por parte dos produtores rurais pessoas físicas. Agora é necessário comprovar pelo menos dois anos de escrituração contábil formal para incluir determinadas dívidas na recuperação judicial.
Damasceno ressalta que essa nova regulamentação pode alterar significativamente o número desses pedidos dependendo da interpretação dos tribunais. O cenário atual demanda atenção redobrada por parte dos envolvidos no setor agropecuário diante das mudanças econômicas e legais em curso.
Autor(a):
Ricardo Tavares
Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.



