Déficit de R 1,5 bilhão nas estatais preocupa governo e TCU aponta fragilidades financeiras

A deterioração financeira das estatais levanta preocupações sobre a necessidade de novos aportes do Tesouro, especialmente com a situação crítica dos Correios.

02/08/2026 14:30

4 min

Movimento no Centro de Tratamento de Encomendas dos Correios, em Benfica
Movimento no Centro de Tratamento de Encomendas dos Correios, em...

O governo federal está alarmado com o aumento dos prejuízos das empresas estatais. O Banco Central divulgou, na última sexta – feira (31), o relatório “Estatísticas Fiscais”, que revela um déficit de R 1,5 bilhão registrado pelas estatais em junho.

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A situação é ainda mais preocupante, já que uma fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU) identificou, em 2025, deterioração econômico – financeira em onze dessas empresas, sugerindo que algumas poderão precisar de novos recursos do Tesouro Nacional nos próximos anos.

Entre as estatais afetadas estão companhias portuárias, a Casa da Moeda, a Emgea e a Infraero. O TCU aponta fragilidades estruturais nessas empresas, como perda de receitas, altos custos operacionais e passivos trabalhistas e previdenciários. Essas instituições também dependem de soluções temporárias para manter suas operações.

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Preocupação com os Correios

O especialista em contas públicas Murilo Viana destaca que os Correios são o foco principal de atenção nesse contexto. Atualmente, a estatal não impacta diretamente o cálculo do resultado primário do governo, pois é classificada como uma empresa estatal não dependente.

Segundo Viana, essa classificação pode ser revista devido à grave situação financeira da empresa.

“Se os Correios forem reclassificados como uma estatal dependente, isso representaria um problema significativo para as contas públicas”, afirma Viana. Ele observa que a empresa apresenta características típicas de uma estatal incapaz de se sustentar por conta própria.

Os números são alarmantes: os Correios encerraram 2025 com um prejuízo líquido de R 8,5 bilhões e perderam cerca de 30% da participação no mercado de encomendas entre 2018 e 2025. Além disso, as despesas com pessoal representam mais de 60% dos gastos totais da empresa.

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Desafios financeiros das estatais

Para manter suas operações, os Correios contrataram R 12 bilhões em empréstimos com garantia da União em dezembro de 2025. O custo projetado desse montante até 2040 é de R 34,2 bilhões. O contrato também prevê um aporte mínimo de R 6 bilhões da União até 2027.

A empresa ainda busca uma nova linha de crédito no valor de R 8 bilhões para 2026.

O plano de reestruturação dos Correios enfrenta dificuldades significativas. Até abril de 2026, apenas 3.748 funcionários aderiram ao programa de desligamento voluntário, que tem meta de atingir 10 mil adesões. Além disso, as vendas de imóveis arrecadaram somente R 11 milhões, bem abaixo da previsão inicial de R 1,5 bilhão.

A situação financeira do setor nuclear também preocupa o TCU. A Eletronuclear e suas empresas associadas enfrentam problemas semelhantes. Com um prejuízo registrado em 2025 no valor de R 142,1 milhões, a Eletronuclear lida com dívidas relacionadas à construção da usina Angra 3 e aos altos custos operacionais das usinas Angra 1 e Angra 2.

Situação crítica em outras estatais

A Portos Rio foi classificada como uma empresa em alto risco pelo TCU devido ao seu patrimônio líquido negativo e à necessidade estimada de R 1,14 bilhão em aportes do Tesouro para 2024. A Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) apresenta risco médio – alto após registrar déficits operacionais nos últimos anos.

A Casa da Moeda também aparece no relatório do TCU por ter acumulado déficits operacionais nos últimos três anos e por depender das receitas financeiras para sustentar seus resultados — estratégia considerada limitada pelo tribunal.

A Emgea enfrenta desafios estruturais devido ao encerramento previsto para dezembro de 2026 da gestão dos créditos do FCVS (Fundo de Compensação de Variações Salariais), sua principal fonte de receita.

Além disso, a Infraero tem risco fiscal considerado baixo no curto prazo; no entanto, estima perdas significativas até 2030 devido a restrições operacionais no Aeroporto Santos Dumont.

Consequências para as contas públicas

O TCU alerta sobre a combinação entre modelos fragilizados das estatais e altos passivos financeiros que podem transformar riscos potenciais em despesas efetivas para a União. A análise conclui que o desafio é evitar que empresas atualmente não dependentes se tornem um ônus permanente ao orçamento federal.

“Quando uma estatal deixa de conseguir se financiar sozinha, o problema deixa de ser apenas dela e passa a ser um problema fiscal do governo”, finaliza Viana.

Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.

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