Mulheres Negras Mineiras Fazem História No Dia Internacional

Lélia Gonzalez e outras intelectuales mineiras impulsionaram debates cruciais sobre identidade racial e desigualdade social até 2026.

24/07/2026 18:32

5 min

A data é um chamado para o fortalecimento das organizações das mulheres negras na luta contra a violência racista e patriarcal
A data é um chamado para o fortalecimento das organizações das m...

A história das mulheres negras no Brasil e na diáspora é marcada por profundas lutas contra o racismo estrutural, a desigualdade social e as opressões patriarcais. Intelectuais como Lélia Gonzalez, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Nilma Lino Gomes construíram um vasto legado que não apenas debateu identidades étnico – raciais em diversas áreas do país — especialmente Minas Gerais—, mas também moldou políticas públicas importantes.

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O reconhecimento dessa trajetória se manifesta tanto internacionalmente quanto nacionalmente: enquanto 25 de julho marca globalmente o Dia da Mulher Negra Latino – americana e Caribenha (data originada no primeiro Encontro das mulheres afro na República Dominicana em 1992), a data ganhou relevância local com celebrações como as dedicadas à rainha Tereza de Benguela, figura central por resistir à escravidão pelo Quilombo do Quariterê há cerca de duas décadas no século XVIII.

A luta pela visibilidade negra

Desde que é reconhecido esse debate sobre raça, classe e gênero nas profundas desigualdades brasileiras, Minas Gerais se consolidou como um berço intelectual para muitas dessas vozes pioneiras.

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Lélia Gonzalez exemplifica essa força acadêmica; ela nasceu em Belo Horizonte na década de 1930, mas construiu sua militância intelectiva principalmente no Rio de Janeiro. Formada por cursos superiores abrangentes —história, geografia e filosofia —, dedicou – se a estudar as intersecções entre etnia, cultura brasileira e questões de gênero.

“Amefricanidade” foi o conceito cunhado pela ativista que apontava não só os laços culturais indígenas e negros da América Latina, mas também uma experiência comum compartilhada pelas vítimas dessa opressão histórica.”, explicam pesquisadores sobre seu trabalho seminal.

As vozes literárias do cotidiano

A literatura se tornou um poderoso veículo para dar visibilidade às experiências negras no Brasil. Carolina Maria de Jesus é talvez o exemplo mais emblemático disso; Bitita nasceu em Sacramento (MG) — município próximo a Araxá —, sendo reconhecida como “poetisa” desde muito jovem.

Mesmo com acesso limitado à educação formal, ela era escritora ávida que vivia e trabalhava principalmente na condição de empregada doméstica nos grandes centros urbanos, passando por São Paulo e Rio de Janeiro. Foi enquanto moradora da favela do Canindé, trabalhando pela coleta de materiais recicláveis, que conseguiu publicar seu primeiro livro através de um jornalista: “Quarto de Despejo”.

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“Os diários não apenas mostram o dia – a – dia difícil dentro das comunidades carentes; eles também são reflexões profundas sobre a política brasileira em meio ao racismo estrutural”, complementam especialistas.

Escrevivências e ativismo acadêmico

A obra literária continuou sendo moldada por outras mulheres. Conceição Evaristo é uma escritora mineira cuja trajetória está intimamente ligada à memória coletiva, tendo vivido com sua família na favela do Pindura Saia até 1971, quando as construções foram destruídas pela prefeitura local.

“O lugar foi eternizado no livro Becos da Memória,” o título publicado em 2006 registra essa experiência de vida. Ela se formou pelo curso normal ainda nesse ano (1971) e logo depois seguiu para Rio de Janeiro como professora; posteriormente obteve formação completa em letras na UFRJ.

Sua obra abrange contos, poesia, romances e ensaios que abordam a subjetividade negra por meio dos termos “escrevivências”.

Sobre as escrevivências. As ‘Escrevivências’ são definidas pela própria autora não apenas como textos criativos ou literários sobre mulheres negras.

“São experiências vividas pelas mulheres pretas nos espaços narrados,” explica Conceição Evaristo; ela argumenta ser uma forma de escrita coletiva. Segundo o conceito dela, essa literatura visa acordar e dar voz ao que é historicamente silenciado na narrativa da elite branca brasileira.”

Lideranças em políticas públicas

A luta por direitos também se manifestou no campo acadêmico das grandes universidades federais do país. Nilma Lino Gomes nasceu novamente em Belo Horizonte — cidade berço dessas lutadoras —, sendo pedagoga e professora titular da UFMG. Sua obra tem sido fundamental para a compreensão sobre como construir identidades negras sólidas dentro dos movimentos sociais.

“Nilma teve uma trajetória pioneira notável: foi a primeira mulher negra até hoje a ocupar o cargo de reitora numa universidade federal, na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro – brasileira – UNILAB –, nos anos entre 2013 e 2014.”, detalha um biógrafo do movimento.

A defesa religiosa e cultural

Outra figura essencial no ativismo contemporâneo é Makota Celinha Gonçalves Souza — jornalista, professora militante em Belo Horizonte —, que também se dedica à causa dos direitos humanos.

“Ela foi pioneira ao cursar o ensino superior dentro de sua família,” relata a trajetória dela; ela entrou para contato com o Movimento Negro Unificado (MNU) já na reta final da década de 1980. Em resposta aos movimentos emergentes após a redemocratização do Brasil, nasceu formalmente o Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileira – Cenarab.

A missão dessa entidade coordenada por cônsula tem sido combater ativamente tanto qualquer tipo de discriminação quanto intolerância religiosa.”

O impacto duradouro das vozes negras

As contribuições dessas mulheres — desde as pioneiras como Lélia Gonzalez em Belo Horizonte até os trabalhos acadêmicos mais recentes —, demonstram que há um esforço contínuo para reescrever narrativas históricas no país.

“A luta não é apenas pela memória, mas pelo reconhecimento do papel fundamental da mulher negra na construção social e política brasileira,” concluem especialistas sobre o tema.

Autor(a):

Ambientalista desde sempre, Bianca Lemos se dedica a reportagens que inspiram mudanças e conscientizam sobre as questões ambientais. Com uma abordagem sensível e dados bem fundamentados, seus textos chamam a atenção para a urgência do cuidado com o planeta.

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