Menos crianças recebem tratamento contra HIV após cortes de ajuda dos EUA, aponta estudo
Cortes na ajuda dos EUA resultam em um alarmante declínio no tratamento pediátrico para HIV, afetando 77 mil crianças até outubro de 2025.
Cortes na ajuda dos Estados Unidos resultaram em um drástico declínio no tratamento de crianças com HIV, conforme aponta um estudo apresentado nesta terça – feira (21) na conferência Aids 2026, realizada no Rio de Janeiro. A pesquisa revelou que aproximadamente 77 mil crianças deixaram de receber tratamento com apoio americano até outubro de 2025, em comparação ao ano fiscal anterior.
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O estudo destaca que os dados se referem apenas aos auxílios fornecidos pelos EUA e que algumas dessas crianças podem ter recebido tratamento por meio de outros países ou doadores. A análise revelou uma queda de cerca de 14% nos tratamentos apoiados pelos EUA em relação ao ano anterior, embora os pesquisadores enfatizem a necessidade de dados mais detalhados por país para avaliar o impacto real dessa redução.
Impacto das mudanças na ajuda externa
Os pesquisadores liderados por Kenneth Ngure, professor de saúde global da Universidade Jomo Kenyatta de Agricultura e Tecnologia, analisaram informações do Pepfar (Plano de Emergência do Presidente para Alívio da Aids), programa internacional dos Estados Unidos voltado ao combate ao HIVAids.
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Eles identificaram um declínio no tratamento pediátrico apoiado pelos EUA em 20 dos 21 países estudados. Apesar disso, outras organizações e governos podem ter implementado intervenções para garantir que as crianças continuassem recebendo cuidados.
A cobertura do tratamento é um pouco menor quando se considera o “apoio central”, que se refere ao financiamento dos EUA para atividades em nível nacional ou subnacional. Nesse contexto, cerca de 55 mil crianças a menos foram atendidas no ano passado.
Os países analisados foram selecionados porque todos tinham mais de 2.000 crianças recebendo tratamento para o HIV com suporte do Pepfar.
A África do Sul foi o país que enfrentou o maior declínio absoluto, com aproximadamente 30 mil crianças a menos recebendo apoio — uma redução de 45%. Zimbábue, Quênia e Malaui também apresentaram quedas significativas. Além disso, as reduções nas taxas foram mais acentuadas do que as trajetórias previstas em cinco países: Uganda, Haiti, Zâmbia, África do Sul e Quênia.
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Testemunhos sobre a situação no campo
A ativista da saúde Susan Wairimu Metta, que atua em comunidades afetadas pelo HIV em Kisumu Oeste, no Quênia — uma região com altas taxas de prevalência fora da capital — confirmou os achados do estudo. Segundo ela, as mudanças tiveram um impacto real nos cuidados pediátricos relacionados ao HIV no país.
Metta destacou a diminuição da disponibilidade de grupos de apoio comunitário e a introdução de novas taxas para exames anteriormente gratuitos como fatores que dificultaram o engajamento das famílias no tratamento.
Como resultado dessas dificuldades, houve um aumento no número de crianças diagnosticadas com HIV em estágio avançado na região. O impacto foi especialmente severo durante o início do ano passado, quando os EUA iniciaram uma “suspensão das atividades” enquanto desmantelavam partes do seu programa internacional de ajuda.
Apesar da melhora observada desde então — propiciada pelo treinamento de equipes pelo governo queniano para preencher lacunas deixadas pela redução da ajuda — muitos sistemas comunitários que evitavam a exclusão das crianças ainda não foram totalmente restabelecidos.