Maria Izabel Grein detalha legado agroecológico de “Dona Maria”

Maria Natividade de Lima consolidou legado agroecológico e defesa da reforma agrária no Paraná.

31/07/2026 19:01

4 min

Dona Maria na inauguração do horto de plantas medicinais e do viveiro florestal dos quais fazia parte, no assentamento Contestado, junto com a Escola Latino Americana de Agroecologia Ana Primavesi, em 2025.
Dona Maria na inauguração do horto de plantas medicinais e do vi...

Para a militante do Setor de Saúde do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Paraná, Maria Izabel Grein define que “cuidar dos outros é o mais importante na vida humana”. Essa frase resume o legado deixado por sua amiga e companheira de luta, Maria Natividade de Lima — carinhosamente chamada apenas de “Dona Maria” —, após seu falecimento em um encontro da milícia sem – terra.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A trajetória dedicada à causa popular foi marcada pela defesa constante da Agroecologia e da Saúde Popular como pilares fundamentais para a reforma agrária. Dona Maria partiu recentemente do assentamento Contestado, localizado na Lapa, PR, onde residia há 25 anos, deixando uma história intrinsecamente ligada ao movimento MST no Paraná.

As raízes camponesas: A longa jornada por terra

Nascida em 7 de agosto de 1952 numa família com origens caipiras no sudoeste paranaense, sua vida já estava atrelada às lutas sociais desde cedo. Seu pai havia participado historicamente da Revolta dos Colonos que ocorreu em Francisco Beltrão (PR.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A partir de 1984, Dona Maria começou a se envolver na Pastoral da Terra e também passou pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Na época, o pequeno lote familiar não era mais suficiente para sustentar os onze filhos ou receber as novas famílias formadas.

O ano foi crucial quando ela acampou pela primeira vez com seu grupo sem – terra vizinho: no município de Inácio Martins, PR. Em um cenário ainda bruto e sob condições climáticas severas — durante uma geada —, sua família precisou montar acampamento carregando itens básicos como arroz e feijão crioulos do cultivo próprio em conjunto com colchonetes e cobertor

Saúde popular na luta por direitos

Foi nesse momento difícil que Dona Maria integrou o Setor de Saúde do MST localmente. Ela não apenas organizava a produção artesanal de chás medicinais para melhorar as condições alimentares da comunidade; ela também se conectou profundamente à saúde popular através dos conhecimentos transmitidos pela avó materna, parteira e benzedeira.

Seu engajamento fez diferença: seis anos após aquele acampamento inicial, aquela terra grilada deu origem ao assentamento José Dias. Mais tarde, já estabelecida no Contestado, sua energia foi fundamental em uma das maiores conquistas coletivas na Reforma Agrária Popular — a construção da Unidade Básica de Saúde (UBS) Chica Pelega

Leia também

Defesa do cuidado humano contra o envenenamento

Dona Maria sempre defendeu que seu projeto de vida era um “projeto de vida do cuidado”, defendendo os métodos naturais ensinados por seus pais e avós. Ela se tornou crítica feroz tanto aos ciclos viciantes do agronegócio quanto à indústria farmacêutica.

“Ingestão de comida envenenada e de água contaminada levam o povo a ingerir medicamentos alopáticos, que também envenenam,” alertava Dona Maria em suas falas públicas; ela argumenta ainda que esses tratamentos só abordam sintomas sem chegarem na causa real da doença

Por isso, defendeu veementemente uma farmácia viva— um sistema baseado no diálogo, solidariedade e respeito mútuo para além da mera produção lucrativa. Roberto Baggio, integrante da coordenação nacional do MST, reforçou essa visão ao afirmar: “É uma vida dedicada ao cuidado humano. Há beleza maior que isso?”.

Um legado de estudo contínuo

O compromisso com o conhecimento nunca cessou até os últimos anos em sua trajetória; após ter estudado apenas até a terceira série devido às dificuldades financeiras na infância, Dona Maria conseguiu se formar entre 2024 e 2025 no Curso de Extensão em Práticas Integrativas de Saúde (PICS) com Ênfase em Fitoterapia

A militante também participou ativamente do coletivo de Saúde Popular durante eventos como a Vigília Lula Livre, período compreendido entre 2018 e 2019. Seu apoio foi vital quando ela integrou a Brigada de Solidariedade em Rio Bonito do Iguaçu — local que sofreu três tornados —, onde ajudou o atendimento dos cerca de mil militantes Sem Terra ao longo de quarenta e três dias.

“O encerramento da vida dela é misterioso,” descreveu Baggio sobre Dona Maria; “porque seu testemunho era sempre aquele de uma mulher realizada humanamente… por tudo aquilo que colecionativamente foi construído.”

Autor(a):

Com uma carreira que começou como stylist, Sofia Martins traz uma perspectiva única para a cobertura de moda. Seus textos combinam análise de tendências, dicas práticas e reflexões sobre a relação entre estilo e sociedade contemporânea.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ative nossas Notificações

Ative nossas Notificações

Fique por dentro das últimas notícias em tempo real!