Multidões rezando por pneus revelam sintomas ideológicos no Brasil

Fenômenos sociais e políticos recentes têm sido objeto intensos estudos por sociólogos marxistas, que buscam entender o significado profundo das manifestações populares brasileiras em períodos de grande instabilidade.
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Longe de tratar esses eventos como mera irracionalidade ou “loucura”, a análise acadêmica aponta para sintomas ideológicos complexos: formas de consciência reificada nascidas diretamente do capitalismo neoliberal. Essa perspectiva teórica se apoia na tradição da Escola de Frankfurt e exige uma compreensão detalhada dos conceitos de semicultura e pseudoatividade.
Teoria crítica ajuda a decifrar as cenas políticas
Para compreender os acontecimentos no Brasil durante certos quadrienios políticos recentes — chamados por alguns analistas de fascismo brasuca —, o filósofo Theodor Adorno forneceu um arsenal teórico fundamental em seus ensaios, incluindo “Teoria da Semicultura” e “A Psicanálise dos Líderes Fascistas”.
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Segundo essa ótica, atos como rezar para pneus ou aglomerações clamando pela intervenção extraterrestre não são meramente aleatórios. Eles representam uma consciência coisificada: objetos do cotidiano ganham significado mágico quando a sociedade se sente impotente diante das forças econômicas que governam.
O celular apontado ao céu é outro exemplo complexo analisado por ele. Nele convergem dois conceitos cruciais de Adorno — semicultura e pseudoatividade —, mostrando o uso fragmentário da informação em um contexto histórico crítico desarticulado; além disso, cria – se a ilusão ativa na participação histórica enquanto há apenas submissão à passividade perante poderes incompreensíveis.
A crise institucional vista pelos marxistas
Quando grandes grupos populares ocupam quartéis militares pedindo intervenção do Exército ou polícia para resolver conflitos sociaisum cenário clássico estudado pelo teórico Nicos Poulantzas em “Fascismo e Ditadurao foco é entender uma profunda “crise de representação”.
Essa análise sugere que parte da população se sente traída pelas instituições democráticas liberais. Sem contar com alguma organização autônoma baseada nas classes, o aparato repressivo estatal passa a ser visto como um árbitro neutro capaz de salvar os confrontos internos.
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O fenômeno revela também uma consciência autoritária persistente: há quem anseie pela ordem acima do diálogo social ou das disputas políticas legítimasuma busca por unidade nacional mítica através de soluções fortes para conter ameaças percebidas (reais ou imaginárias) à estabilidade econômica e política brasileira em geral.
Análises contemporâneas sobre bolsonarismo
Vários intelectuais marxistas brasileiros trouxeram análises diretas da base social que alimenta o movimento político conhecido pelo termo “bolsonarismo”. Vladimir Safatle, um pensador que mescla teoria crítica com psicanálise lacaniana, descreve esse fenômeno como um circuito afetivo intenso.
Ele explica a mobilização constante do medo e ódio — uma demanda punitiva— criando um estado de excitação política incessante desprovido qualquer mediação racional lógica ou intelectualmente complexa.
Outra perspectiva vem de Sabrina Fernandes em seu livro “Se quiser mudar o mundo”. Partindo de um viés ecossocialista marxista para decifrar essa adesão ao discurso bolsonarista, ela aponta que há na frustração gerada pela precarização da vida moderna sua transformação gradual: os indivíduos passam por aderir mitos messiânicos ligados à ordem absoluta e pânico moral coletivo.
Mauro Iasi complementa esse quadro com “O dilema de Hamlet”, analisando a consciência de classe no Brasil; ele argumenta que esses eventos não são desvios das massas populares.
Para autores como Dunker ou Safatle é mais preciso entender o fenômeno dessas manifestações caóticas — seja em pneus doados para oração mágica, sejam nos acampamentos —, pois elas representam uma expressão trágica de um sujeito social fragmentado pela angústia econômica bloqueada na experiência de sua própria classe.
Conclusão sobre as tensões sociais
Em resumo, sob a ótica marxista e da teoria crítica, os atos observados não são meros desvios comportamentais. Eles ilustram que quando há falha no controle das condições materiais produtivasquando o indivíduo se sente desconectado daquilo que produz seu sustento ou do sentido histórico em si mesmo —a cultura passa por semiformação.
O resultado é uma política real substituída pela encenação constante; um estado de angústia social onde grupos rechaçam até mesmo convívio estabelecido para manterem alguma “des – ordem” baseada na violência simbólica contra entidades insólitas como pneus velhos e quartéis militares, evidenciando a profundidade da crise brasileira.
Autor(a):
Bianca Lemos
Ambientalista desde sempre, Bianca Lemos se dedica a reportagens que inspiram mudanças e conscientizam sobre as questões ambientais. Com uma abordagem sensível e dados bem fundamentados, seus textos chamam a atenção para a urgência do cuidado com o planeta.



