Luciano Velleda debate com Cacique kaingang sobre desafios da informação após inundações no RS

Cacique Kaingang confronta jornalista Luciano Velleda sobre desafios da informação após tragédia climática no RS.

Participantes do seminário sobre comunicação de riscos e desastres climáticos, na Semana de Ação Climática de Porto Alegre 2026

Um seminário intitulado “Perspectivas comunicacionais sobre os desastres climáticos” reuniu jornalistas, pesquisadoras e uma liderança indígena para debater o alcance das mudanças que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024.

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O evento foi realizado nesta sexta – feira (24), no Auditório 1 da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FabicoUFRGS). Gratuito ao público geral, contou com interpretação em Libras e audiodescrição.

O encontro ocorreu mesmo diante dos novos episódios de chuvas fortes na região gaúcha, um cenário climático intenso que permeou boa parte das discussões realizadas pelos participantes.

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Debate sobre a comunicação após as enchentes

O seminário foi dividido entre duas mesas temáticas principais. A primeira abordou o tema da comunicação pública, contando com os jornalistas Luciano Velleda e Cacique kaingang, liderança indígena pertencente à aldeia Van Ká no extremo sul de Porto Alegre.

Já a segunda mesa focou especificamente em como ocorre a cobertura midiática dos desastres sob uma perspectiva acadêmica mais profunda. Participaram desta discussão Camila Santos; Professora Eloísa Beling Loose, pesquisadora do Programa de Pós – Graduação em Comunicação (PPG Comuni) da UFRGS; jornalista Luís Eduardo Gomes, que representa o Sul21; além das profissionais Katia Marko, editora – chefe, e Clara Aguiar, repórter — ambas ligadas ao Brasil de Fato RS.

A responsabilidade por trás do “desastre provocado”

“Um evento climático é natural. A chuva também é,” defendeu a comunicadora Katia Marko no contexto jornalístico apresentado pelo veículo Brasil de Fato. Segundo ela, o desastroso cenário não foi causado apenas pelos fenômenos naturais em si: “O desastre é provocado”, afirmou.**

Marko relatou que o próprio portal, um meio se definindo como popular na comunicação gaúcha, teve dois profissionais atingidos pelas enchentes; foram os editor Marcelo Ferreira e a repórter Clara Aguiar.

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Visibilidade para movimentos sociais. A cobertura da redação do Brasil de Fato apoiou – se fortemente nas fontes ligadas aos grandes movimentos sociais. Entre eles estavam citados o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e também o Movimento de Trabalhadores por Direitos (MTD.

Para Marko, esses grupos são frequentemente alvo de criminalização pela grande imprensa tradicional; portanto, a reportagem buscou dar visibilidade às atuações desses coletivos na organização das cozinhas solidárias durante toda aquela crise.

“O lado que tem é o capital,” criticou ainda ela em relação ao viés da mídia hegemônica do setor financeiro. Além disso, destacou – se um material publicado pelo portal no dia 3 de maio de 2024 — nos primeiros dias após as enchentes —, com professor Valério Pillar sobre como se relaciona a destruição biológica Pampa e a capacidade natural do solo absorver água.

Da pesquisa acadêmica à vivência pessoal

A repórter Clara Aguiar compartilhou sua trajetória profissional: formada pela FabicoUFRGS em Jornalismo, ela acompanhava o tema das inundações já na condição de pesquisadora antes mesmo de ser uma “atingida”, conforme própria descrição. Na época dos fatos, morava em Canoas e precisou deixar seu lar por um período que totalizou 23 dias.

Essa experiência a levou a dedicar parte do trabalho de conclusão de curso (TCC) para analisar como foi feita a cobertura pelo Brasil de Fato durante os primeiros meses da enchente; nesse recorte temporal foram publicadas impressionantes cento e setenta e oito notícias sobre o ocorrido no estado. Um resultado importante dessa pesquisa mostrouque as fontes utilizadas pela redação vieram majoritariamente desses movimentos sociais— citando MAB —, superando significativamente qualquer fonte institucional. Aguiar interpretou isso como prova concreta do compromisso editorial em dar espaço às vozes historicamente marginalizadas.

Apontamento das falhas políticas

Outro achado relevante da análise de Clara foi que a cobertura não tratava os desastres apenas sob uma ótica naturalista, mas apontavam responsabilidade política por trás dos eventos catastróficos. Segundo o estudo, o governador Eduardo Leite recebeu críticas pela flexibilização na legislação ambiental e então prefeito Sebastião Melo enfrentou questionamentos sobre suposta omissão diante alertas emitidos no período crítico.

Nos dois anos seguintes ao evento trágico em 2024, Aguiar produziu diversas reportagens focadas nos centros humanitários temporariamente montados para acolher as famílias atingidas.

O trabalho culminou com a produção do documentário “Onde está a reparação?”, realizado pelo Brasil de Fato juntamente com o MAB; essa obra revisitou territórios como Eldorado do Sul, Canoas e Estrela — localizados no Vale do Taquari —, onde ainda há relatos sobre famílias vivendo nesses locais utilizando contêineres sem previsão real de acesso à moradia definitiva.

Educação em comunicação para riscos climáticos

Após as apresentações das mesas temáticas, os participantes tiveram espaço aberto na plateia para perguntas e comentários que enriqueceram a discussão.

Os questionamentos dos presentes enfatizaram o papel crucial da educomunicação como uma ferramenta essencial não só durante crises imediatas, mas também no preparo geral da população diante eventos extremos do tipo climático. O debate reforçoua necessidade de construir urgentemente — ainda pouco consolidada no Brasil — uma cultura robusta voltada à comunicação preventiva sobre risco.