Democracias latino-americanas enfrentam desafios autoritários e preocupações sobre sua saúde

A crescente erosão da democracia na América Latina levanta alarmes sobre a estabilidade política e a proteção dos direitos civis na região.

28/07/2026 03:15

4 min

Eleitor deposita seu voto em uma urna durante as eleições presidenciais chilenas de 2025
Eleitor deposita seu voto em uma urna durante as eleições presid...

Movimentos recentes de líderes políticos na América Latina geram preocupações sobre a saúde da democracia na região. Ataques a direitos eleitorais e à institucionalidade dos regimes se intensificam. Entre os casos mais emblemáticos, estão as ações de Daniel Ortega, que anunciou o fim das eleições na Nicarágua, e Nayib Bukele, que confirmou sua candidatura a um terceiro mandato como presidente de El Salvador.

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Ortega, no poder desde 2008, fez o anúncio em um discurso que foi saudado por seus apoiadores. Segundo especialistas, suas declarações são um exemplo claro de decisões autoritárias. Por outro lado, Bukele, caso vença as eleições, poderá permanecer no cargo até 2033.

Seu governo controla quase todas as instituições do país, incluindo as eleitorais e a principal instância da justiça.

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Desafios democráticos na América Latina

A democracia na América Latina é um fenômeno relativamente novo, marcado por uma longa história de golpes militares e intervenções ao longo do século XX. Cada país construiu seu regime de acordo com suas particularidades. Alberto Pfeifer, coordenador – geral do grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da USP (Universidade de São Paulo), ressalta que as instituições democráticas se adaptam aos contextos locais.

Apesar das diferenças entre os países, uma tendência preocupante se consolidou desde 2010: a diminuição do apoio popular à democracia. Levantamentos do Latinobarômetro indicam que 58% dos latino – americanos consideravam a democracia seu regime preferido no início da década passada; esse número caiu para 48% em 2018.

A pesquisa também mostrou um aumento entre aqueles que veem igualdade entre regimes democráticos e autoritários.

Thiago Vidal, cientista político e diretor de análise política da consultoria Prospectiva, comenta que houve uma crise de confiança nas instituições democráticas nos últimos dez anos. Essa deterioração se relaciona à incapacidade dos governos de atender às demandas sociais, resultando em perda de legitimidade em várias nações.

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Alguns países chegaram a adotar regimes autocráticos; El Salvador é um exemplo disso, classificado como uma “autocracia branda”.

Eleições sob suspeita

A situação política se complica ainda mais quando observamos as recentes eleições na Colômbia e no Peru. Gustavo Petro, ex – presidente colombiano que não conseguiu eleger um sucessor, acusou irregularidades nas votações. O vencedor Abelardo de la Espriella também enfrenta polêmicas em sua trajetória política.

No Peru, Keiko Fujimori — filha do ex – ditador Alberto Fujimori — foi presa em 2018 por suposto financiamento ilegal de campanhas presidenciais. Embora negue qualquer irregularidade, seu discurso remete ao desejo de “volta à ordem” do governo anterior.

Apesar das reclamações de Petro e Fujimori sobre as eleições em seus respectivos países, institutos internacionais afirmam que os pleitos foram livres. Pfeifer destaca que a presença de observadores internacionais assegura a qualidade eleitoral dos processos.

Confiança nas instituições democráticas

A confiança nas instituições é outra questão alarmante. O Latinobarômetro aponta que em 2024 a percepção de falta de acesso à justiça contribui para a desconfiança no sistema judicial. Apenas 24% dos cidadãos afirmaram confiar no Congresso devido à falta de representação e legitimidade percebida.

Vidal reforça que essa situação exige atenção redobrada para recuperar a confiança nas instituições democráticas da região. No entanto, ele acredita que isso não ameaça diretamente o regime democrático como um todo.

Após a pandemia de Covid-19, alguns índices de apoio à democracia começaram a se recuperar. O relatório mais recente indica que esse apoio vem melhorando significativamente nos últimos dois ou três anos.

Perspectivas futuras

O cenário político apresenta desafios sérios, mas ainda há espaço para a sobrevivência da democracia na América Latina. O “Democracy Index” de 2025 elaborado pela revista britânica The Economist aponta melhorias após uma década conturbada.

As eleições na Bolívia foram vistas como um avanço democrático após o governo Morales. Vidal conclui que embora existam espaços para melhora e fortalecimento das instituições democráticas na região, a dinâmica democrática continua avançando.

Ana Carolina é engenheira de software e jornalista especializada em tecnologia. Ela traduz conceitos complexos em conteúdos acessíveis e instigantes. Ana também cobre tendências em startups, inteligência artificial e segurança cibernética, unindo seu amor pela escrita e pelo mundo digital.

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